31 março 2026 - 10:59
Uma mãe entre as cinzas da guerra

Retiramos o exame de ultrassom de sua mão direita. Estava amassado. Havia manchas marrons sobre ele. Talvez lágrimas. Talvez sangue. Talvez os dois. Na outra mão, havia uma boneca. Uma boneca rosa. Costura grosseira. Com o algodão saindo do ventre. Um dos botões dos olhos havia se soltado. Uma das orelhas estava queimada. No peito, escrito com caneta: “Para minha Nazanin, da mamãe.”

Agência Internacional AhlulBayt (A.S.) – ABNA Brasil: O cheiro de pólvora ainda não havia desaparecido. Eram três da madrugada quando as bombas começaram a cair. Uma casa residencial. Não era um alvo militar. Apenas uma casa. Com paredes que um pai havia pintado, com janelas para as quais uma mãe havia costurado cortinas para o dia de festa.

Quando nos permitiram entrar, já não era mais uma casa. Apenas aberturas profundas como sonhos destruídos. Uma cratera cheia de tijolos quebrados, livros rasgados, roupas queimadas e coisas que já não lembravam a vida.

Encontramo-la sob uma viga de concreto. Uma jovem. Cerca de trinta anos. No meio da fumaça e da pólvora, aquele simples cheiro de vida partiu meu coração.

Seu rosto estava voltado para a qibla. Como se, nos últimos segundos, estivesse rezando. Suas mãos estavam presas sobre o ventre. Ali onde o feto de três meses... não estava. Estava. Tinha coração. Tinha pulso. Tinha nome. “Nazanin.”

Retiramos o exame de ultrassom de sua mão direita. Estava amassado. Havia manchas marrons. Talvez lágrimas. Talvez sangue. Talvez ambos.

Na outra mão, havia a boneca. Rosa. Costura grosseira. O algodão saía de seu ventre. Um botão faltando no olho. Uma orelha queimada. No peito, escrito: “Para minha Nazanin, da mamãe.”

Ali mesmo, sobre as cinzas da casa, ajoelhei-me. Beijei a boneca. Coloquei o ultrassom ao lado. Disse:

“Ó Deus, eles não tinham armas. Eles não eram soldados. Essa mulher só queria que sua filha nascesse. Queria ensiná-la a costurar uma boneca. A sorrir. A viver sob um céu azul, não sob um teto de fogo.”

Retiramos o corpo. Permaneci em silêncio. Um colega disse: “Você não está bem, vá descansar.”

Fui para trás de um muro destruído. Tirei a boneca do bolso. Olhei para ela. Disse:

“Nazanin... sua mãe nunca soltou você. Até o último suspiro, sua mão estava sobre você. Mesmo quando ferro e fogo caíam do céu. Agora... agora vocês estão com Deus, que é mais misericordioso do que todos nós. Vá com Ele. Diga a Ele: aqui embaixo, há um socorrista que guarda sua boneca no bolso. Até que a guerra acabe. Até que nenhuma mãe precise costurar uma boneca para seu bebê, sabendo que talvez não haja amanhã.”

As bombas começaram novamente. A terra caiu sobre mim. Coloquei a boneca no bolso do peito. Perto do coração.

Levantei-me. Voltei aos escombros. Talvez ainda houvesse alguém vivo. Talvez ainda houvesse uma mãe que tivesse perdido sua boneca. Talvez ainda...

Mas Nazanin e sua mãe haviam partido. Foram para um lugar onde nenhuma bomba chega. Um lugar onde não existem ataques a casas.

Só uma coisa ficou:

Uma boneca rosa, com um olho de botão, que permanecerá para sempre no bolso de um socorrista coberto de poeira — lembrança de um crime que talvez nenhum tribunal jamais julgue.

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